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Casos mentes perigosas (2)

25.01.12
Laura, uma paciente, tem 31 anos e está se recuperando de um quadro depressivo. Tanto eu quanto ela estamos nos empenhando para que sua vida seja menos cinza e volte a fazer sentido. Acompanhe um pouco de sua história, que pode passar totalmente despercebida e certamente nunca sairá nos noticiários da TV.

Aos 23 anos, no frescor de sua exuberância e beleza, ela era inteligente e estava prestes a se formar no curso de veterinária. Nessa época conheceu Ricardo, um jovem e atraente administrador de empresas.

Ele se mostrou um grande amigo e demonstrava os mesmos interesses de Laura: gostava de cinema, praia, esportes, aventuras, MPB e muito mais. Ricardo conversava de tudo um pouco e detalhava suas aventuras em conversas envolventes. Entre as suas histórias também estavam os problemas: a tirania de seu pai, a sua mãe histérica que na infância o ameaçou com uma faca e a sua saúde frágil. "Na época os médicos lhe disseram que ele não teria uma vida muito longa e Ricardo me contou tudo isso com lágrimas nos olhos", acrescentou Laura.

Aos poucos, Laura foi se envolvendo com suas histórias tristes e experimentou um sentimento dúbio de compaixão e atra-ção. Ela sucumbiu aos seus encantos, floresceu uma grande paixão e foram morar juntos.

Ricardo tinha uma carreira promissora numa empresa multinacional, mas não quis que Laura exercesse sua profissão. Ele gostava de vê-la bem vestida e bela, esperando-o para o jantar e com sua casa impecável. "No início eu até tentei argumentar que a veterinária era o meu grande sonho, mas acabei aceitando porque o amava verdadeiramente".

Certo dia Laura encontrou um cãozinho abandonado e muito doente no meio da rua. Ela se sensibilizou e levou o cachorro para casa, a fim de tratar do animal. Ricardo teve um ataque de

Página 53 fúria e quis devolvê-lo para o mesmo lugar. Ela conseguiu persuadi-lo e cuidou do cão como se fosse um filho. Resolveu chamá-lo de Pituca. Com dois meses de tratamento e muito carinho, Pituca já esbanjava saúde, vitalidade e se tornara um vira-lata branco e peludo de dar inveja a qualquer cachorro de raça.

"Que bom que ele está curado, agora podemos colocá-lo na rua", disse Ricardo. "Mas como? Eu tenho o maior amor por ele! Não posso abandoná-lo, isso é desumano!" Ricardo não pensou duas vezes: deu vários pontapés no animal, colocou-o no carro e desapareceu com Pituca.

Perguntei se ela sabia para onde ele havia levado o cãozinho. Aos prantos, respondeu: "Ele matou o Pituca! Disse que me amava demais e não queria me ver doente cuidando de um simples cachorro. Você consegue imaginar o que isso significou pra mim? Como é que ele pôde esperar que eu cuidasse do Pituca, nutrisse afeto por ele e depois fazer uma coisa dessas?".

Continuei indagando sobre o comportamento de Ricardo, desde a época em que eles se conheceram. "Lembro-me de que quando namorávamos seu pai deixava alguns cheques em branco assinados para pagamentos das contas. Ricardo sempre preenchia valores muito mais altos que o necessário e ficava com o troco. Ele nunca escondeu isso de mim. Ao contrário, ria e comentava satisfeito que, apesar da valentia de seu pai, ele não tinha o menor controle sobre sua conta bancária", disse-me encabulada.

O relacionamento também sempre foi muito instável. Ora ele era extremamente delicado, romântico e mostrava-se orgulhoso em apresentar sua bela companheira aos amigos; ora muito agressivo e temperamental, tratando-a aos berros e com ameaças de "meter-lhe a mão". Mas, segundo Laura, invariavelmente ele pedia mil desculpas e a enchia de carinhos: "Puxa vida, não sei onde estava com a cabeça!", "Acho que estou muito estressado com as responsabilidades do trabalho", "Querida, você é tudo pra mim, a mulher mais linda do mundo!", "Isso nunca mais vai acontecer, eu prometo", "Procure me compreender, você sabe que eu tive uma infância muito difícil".

realmente não foi minha. Eu não sei Ele me deixava completamente confusa...".
E Laura prosseguiu: "Ricardo também era extremamente ciumento e dizia que era por amor. Ficava furioso quando qualquer homem me olhava mais diretamente. Uma vez discutiu seriamente com um rapaz porque cismou que ele estava me paquerando. É lógico que sobrou pra mim também. Depois disso fiquei me perguntando se a culpa

Quanto ao casamento e filhos, ele alegava que ainda não estava preparado e que ambos tinham uma vida pela frente. Cada vez que Laura tocava nesse assunto, ele dava a mesma desculpa ou ficava enfurecido.

"Mesmo amando Ricardo, há alguns anos eu pensei em fazer minhas malas e ir embora. Tivemos uma conversa séria e ele me respondeu que a vida dele estava em minhas mãos. Ele não iria viver muito tempo e por isso se mataria. Tremi da cabeça aos pés e voltei atrás na mesma hora".

tão delicado e, além disso, Ricardo parecia muito bem fisicamente. Ah mas me lembro
Sobre isso, questionei qual era a doença de que Ricardo sofria. "Nunca soube exatamente o que era. Ele não gostava de falar sobre isso e eu respeitava. No início do nosso namoro, tentei conversar com sua mãe sobre o seu passado, mas parece que ela não entendeu muito bem o que eu queria dizer. Achei melhor não mexer num assunto de que ela me disse que Ricardo não era exatamente o homem que eu merecia. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela mudou de assunto".

O tempo passou e Ricardo não precisou mais de Laura: tro-cou-a por uma mulher mais jovem e mais bonita. Ele simplesmente disse à Laura: "Precisamos nos separar. Você é muito ciumenta e estou me sentindo enjaulado." O mundo desmoronou sobre sua cabeça! "Chorei muito sem compreender o que estava acontecendo. Será que eu fui ciumenta e possessiva esse tempo todo e não percebi? Esse era um comportamento dele e não meu!"

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De lá para cá, Laura descobriu que ele teve várias amantes e que o discurso sobre sua doença grave, das ameaças de sua mãe e do seu pai tirano era um grande engodo. Ao comentar sobre seu passado, Ricardo derramava lágrimas de crocodilo, tal qual o animal que lacrimeja quando engole suas presas.

Eu não tinha a menor dúvida: Ricardo é um homem mau, um predador afetivo. Laura foi apenas uma peça do seu jogo cruel. Anulou seus prazeres apenas para servi-lo e exibi-la impecavelmente tal qual um objeto de vitória para alimentar seus instintos egocêntricos e narcisistas.

Agora eu precisava fazer Laura entender que espécie de homem era aquele com quem ela conviveu por sete anos. Era importante que Laura compreendesse que a separação, embora dolorosa, foi a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido: ela se livrou de um mal enorme e dali para a frente poderia reconstruir sua vida.

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